Cenário Econômico Setembro 2023

Economia

Em setembro, a taxa de juros de 10 anos nos EUA subiu cerca de 0,90% para próximo de 4,60%, taxas não observadas desde antes da crise de 2008. Isto pressionou juros em todo o mundo, fortaleceu o dólar e ocasionou uma onda de aversão a risco que contaminou bolsas e ativos de renda fixa tanto em países centrais como periféricos. A principal explicação para este efeito é a surpreendente resiliência da economia americana que reforça a perspectiva de juros altos por mais tempo nas economias centrais. Também houve impactos do aumento da oferta de títulos do governo americano diante de déficit fiscal em alta, uma forte intervenção cambial de países asiáticos junto com venda de reservas de títulos americanos, uma elevação inesperada de preços do petróleo e aumento das expectativas de desaceleração mais abrupta da economia chinesa.

Nos EUA os números de atividade seguem sólidos, com o mercado de trabalho ainda aquecido e  previsão de crescimento relevante do PIB no terceiro trimestre. Espera-se desaceleração suave à frente, sem recessão. A inflação prossegue numa trajetória de queda gradual, com expectativa de convergir a meta somente em 2025. O Fed1 manteve a sinalização de uma alta adicional de 0,25% dos juros neste ano e surpreendeu com uma revisão para cima para os anos seguintes, indicando uma trajetória de cortes mais lenta do que as expectativas anteriores. As preocupações com a questão fiscal norte-americana, que tem uma dívida pública elevadíssima, também ganharam força após o rebaixamento do rating do país pela Fitch, de AAA para AA+, em agosto e mais uma negociação para o aumento do teto da dívida muito dura, que teve como justificativa a deterioração fiscal esperada para os próximos três anos.

Na Europa, o ECB1 indicou que não deve mais subir a taxa de juros, dado que a atividade continua mostrando fraqueza, enquanto a inflação apresentou os primeiros sinais de melhora. O cenário de estagflação parece bastante provável, com dados de atividade colocando expectativas de PIB ao redor de zero, o ECB parece trabalhar com o cenário onde a atividade continua fraca e ajuda a arrefecer a inflação. A contração do crédito e as perspectivas do setor de Serviços pioraram. Com isso, após mais uma alta de juros em Setembro de 0,25%, a sinalização é de que o ciclo de aperto monetário chegou ao fim, com a taxa em 4,5%a.a.. Porém, como a inflação permanece alta, oscilando entre 4,5% e 5% a.a., o discurso é de que não há espaço para cortes de juros por um longo período, talvez até o final de 2024.

Na China, indicadores de atividade mostram que o acúmulo de medidas de estímulos serviram para alcançar uma estabilização da economia, ainda abaixo das metas de governo. Houve anuncio de mais algumas medidas de estimulo: algumas focadas no mercado imobiliário, outras voltadas em tentar elevar a liquidez ao mercado acionário, e outras direcionadas à recuperação do consumo. Também foi anunciada a redução do juros do compulsório bancário em 0,25%, para7,4% a.a.. É pouco provável que o PIB prometido pelo governo de 5%a.a. para 2023 seja entregue, com projeções girando em torno de 4%. Além do problemático mercado imobiliário local, o mundo em desaceleração não tem ajudado as exportações, justificando a fraqueza do setor manufatureiro. Os dados de poupança da população continuam altos e o consumo interno ainda não se recuperou totalmente após a abertura econômica pós Covid. Porém, o governo ainda tem espaço para mais estímulos a economia dado a baixa inflação, ao contrário da Europa e EUA.

Dados do Cenário Internacional

No mês, a bolsa americana (S&P) caiu -4,87%. Em doze meses, a alta acumulada foi de 19,6%.

Na renda-fixa, as taxas dos títulos públicos americanos(Treasures) de 5 anos  tiveram uma alta relevante de 4,25%a.a. para 4,62%a.a. com a taxa básica de juros (FED Funds) se mantendo estável a 5,50%a.a.. Doze meses atrás a taxa destes títulos estava em 4,09%a.a..

O Dólar (DXY) no mês se valorizou 2,51% frente as outras moedas desenvolvidas e as moedas de países emergentes (MSCI EM Currency Index) se desvalorizaram em relação ao dólar 0,51%. Em doze meses o dólar se desvalorizou -5,26% e as moedas de países emergentes se valorizaram 4,83%.

1 ECB – Banco Central da zona do Euro

Cenário Brasil

Economia

O cenário internacional influenciou o local, e apesar de a inflação no Brasil estar em queda e a atividade sendo revisada para cima, as preocupações com as promessas do governo na área fiscal aumentaram este mês. Mesmo o congresso tem dúvidas que os R$ 168 bilhões necessários para zerar o déficit ano quem vem sejam alcançáveis, pois além das dificuldades de aprovação de novas fontes de receita (impostos, desonerações etc.), os números recentes de arrecadação diminuíram. Por outro lado, a comunicação entre Governo e o Bacen na relevância do tema fiscal para a inflação, o crescimento e a queda do Risco Brasil parece que vem melhorando.

Os números de atividade recentes, como o PIB do segundo tri, continuaram surpreendendo para cima. As projeções1 de crescimento do PIB para 2023 se aproximaram de 3,0%, vindo de 2,50% a um mês, enquanto o mercado de trabalho segue aquecido. Estes dados sugerem que a ociosidade da economia é menor do que a estimada anteriormente, ainda que a desaceleração da economia siga como o cenário base.

O mercado de trabalho tem surpreendido desde meados do ano passando, levando a taxa de desemprego ao menor nível desde 2015 e sem pressionar os salários de forma significativa. A melhora da estimativa de emprego e da população ocupada deve continuar auxiliando a massa de renda e o consumo das famílias nos próximos trimestres. A expectativa é que os elevados níveis de comprometimento de renda, inadimplência das famílias, e a taxa de juros em níveis restritivos, causem uma desaceleração adicional à economia, compensando este efeito.

Do ponto de vista da inflação, o Bacen segue sinalizando que o cenário ainda é benigno. A alta de 0,23% no IPCA de agosto, foi impulsionada basicamente pela tarifa de energia elétrica em algumas capitais e pela alta nos preços de combustíveis. Núcleos desaceleraram, índice de difusão desacelerou, e mesmo serviços, que voltaram a subir na comparação mensal, mantiveram a trajetória de desaceleração em 12 meses.

O Copom deu continuidade ao ciclo de corte de juros com mais 0,50%, trazendo a Selic a 12,75%. Na ata da reunião voltou a sinalizar não haver espaço para aceleração no ritmo de cortes. A elevação dos preços internacionais do petróleo, os riscos climáticos sobre os preços dos alimentos representados pelo El Ninõ, a pressão sobre as curvas de juros globais, e as incertezas fiscais domésticas não permitem alteração na estratégia gradualista do Bacen. O último boletim focussinaliza os juros ao fim de 2023 a 11,75% e no final de 2024 a 9,00%.

Com relação ao fiscal, aumentam as preocupações conforme o ano vai acabando. Se o governo não conseguir reunir apoio político suficiente para aprovar o pacote de medidas de aumento de impostos, poderá enfrentar um dilema muito difícil: rever a meta fiscal para 2024, que seria vista de forma muito negativa pelos mercados ou manter a meta zero, respeitando o novo arcabouço fiscal, mas podendo ser forçado a implementar um congelamento de gastos politicamente desafiador em 2024, ano de eleições municipais.

Dados do Cenário Nacional

O Ibovespa fechou o mês aos 116,6 mil pontos, alta de 0,71%. O índice de Small Caps, que possui menos commodities e mais empresas ligadas ao mercado doméstico, teve desempenho pior que o Ibovespa, com queda de -2,85%. O Ibovespa acumula alta de 5,93% em doze meses contra queda do Small Cap de -2,94%.

Na renda fixa o CDI teve rentabilidade no mês de 0,97%, os títulos pré-fixados de 5 anos2 tiveram perdas de -1,37%, e os títulos de inflação de 5 anos3 tiveram perdas de -1,13%. Os ativos de crédito indexados a CDI4 tiveram ganhos de 1,41% (144% do CDI). Em doze meses, o CDI rendeu 13,4%, os pré-fixados de 5 anos renderam 14,6%, os títulos de inflação de 5 anos ganhos de 11,6% os ativos de crédito indexados a CDI renderam 10,6% (79% do DI).

O Real1 se desvalorizou em relação ao dólar -1,74%, terminando o mês em 5,01, vindo de 4,92 no mês anterior. Em doze meses a valorização está em 7,38%, com o câmbio a doze meses em 5,41.

Os fundos Imobiliários5 tiveram ganhos de 0,22% no mês, com ganhos de 7,66% em doze meses.

Os fundos multimercados brasileiros6 tiveram um ganho médio de 0,01% no mês (0,5% do CDI) com rendimento em doze meses de 4,98% (37% do CDI).

1- Ptax ; 2- Anbima Idka Pre 5 anos; 3- Anbima idka IPCA 5 anos; 4- JGP Idex CDI; 5- IFIX; 6- Anbima IHFA

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